CRM
AEC CRM
É com imenso prazer que a AEC publica este artigo sobre CRM. A AEC com seus cursos a distancia, de informatica e capacitação profissional, diversifica e publica este artigo sobre gerenciamento(CRM) voltado para a área de aviação, mas que se aplica a outras áreas de gerenciamento. O autor Gustavo Reis Rocha é formado pela PUC do Rio Grande do Sul em Ciencias Aeronauticas, ex- coordenador técnico do Grupo de Fatores Humanos Varig, ex- assessor do Gerente de Segurança de Vôo – GIPAR da Varig, dentre outros cursos. É ex- piloto de linhas internacionais da Varig e atualmente é piloto da TAM.
CRM : Uma breve história
Dentre os vários treinamentos desenvolvidos ao longo da história da aviação um dos que mais trouxe benefícios em relação à segurança foi o CRM. O significado da sigla nós abordaremos mais adiante, por ora definiremos o CRM como um treinamento de cunho gerencial que trabalha principalmente aspectos comportamentais.
O CRM nasceu da necessidade de se reduzir ainda mais a estatística de acidentes aeronáuticos. Até a década de 70 muito se havia feito no sentido de aperfeiçoar as aeronaves e o seu conhecimento técnico, entretanto pouco se tinha trabalhando no que diz respeito ao desempenho humano quando na interação com essas máquinas e na relação interpessoal. Como resultado dessa política de treinamento tivemos nos anos 70 uma estagnação na curva de acidentes. Em 1979 durante workshop realizado pela NASA foi apresentada a conclusão de estudos nos quais detectou-se que a maioria dos acidentes aeronáuticos tinha como fatores contribuintes a falta de liderança eficaz, a deficiente comunicação, a tomada de decisão falha entre outros elementos que não eram técnicos mas sim comportamentais.
Ao treinamento criado para desenvolver habilidades interpessoais e diminuir a incidência do erro humano deu-se o nome de CRM (Cockpit Resource Management). A United Airlines iniciou então o trabalho desses pontos fracos nos seus tripulante técnicos (pilotos e engenheiros de vôo). Nascia o CRM de primeira geração.
Neste primeiro momento houve uma resistência grande ao treinamento por parte dos tripulantes pelo fato deles entenderem que o que havia era uma tentativa de manipularem suas personalidades.
A segunda geração do CRM teve como principal característica o envolvimento dos comissários no treinamento. O “C” passou a significar CREW, extrapolando o universo do cockpit. Apesar de “bolsões de resistência”, os conceitos passaram a ser mais aceitos pela comunidade aeronáutica (respeitadas as devidas diferenças culturais).
Seguindo a tendência de abranger o CRM passa a defender aspectos da cultura organizacional como elementos importantes para a manutenção da segurança de vôo .
As gerações seguintes assumiram caráter cada vez mais sistêmico e o treinamento passou a fazer parte do rol de habilidades que deveriam ser desenvolvidas nas tripulações e demais equipes durante seus treinamentos iniciais e periódicos como por exemplo os simuladores de vôo. A abordagem da falha humana como algo inerente à nossa condição ganhou força e o foco a partir da quinta geração nos voltamos para o gerenciamento do erro e não mais para a luta inglória de tentar-se evitá-lo.
Percebemos que é muito mais eficaz descobrir e tentar evitar os fatores que nos levam ao erro do que tentar em vão combater nossa natureza falível. Aprendemos também que este gerenciamento passa por saber mitigar as consequências de um erro já cometido.
Atualmente o CRM foca no gerenciamento de ameaças. Aprendemos após tanto estudo e investigação que as ameaças estão presentes no dia-a-dia das organizações (não somente na atividade aérea) e que devemos adotar uma postura pró-ativa e nos antecipar a essas condições que aumentam a complexibilidade das nossas atividades e podem nos induzir a um deslize. Descobrimos que a organização como um todo deve ser trabalhada de forma a não ser uma “auto-indutora” ao erro e, consequentemente aos acidentes e perdas. Esta conscientização deve partir dos mais altos escalões das empresas. Por todas essas mudanças de abrangência e complexidade de aplicação, o “C” do CRM migrou aos poucos para CORPORATE.
Nos dias de hoje o treinamento é muito mais aceito e aplicado, porém muito do que se apregoa ainda sucumbe às pressões comerciais e a alguns casos de anomalias gerenciais. Haverá muito que se trabalhar até o dia em que a nossa cultura passar a ser de fato mais voltada à prevenção do que à investigação, à educação do que à cobrança e punição, à aplicação embasada de treinamentos como o CRM do que ao empirismo.